5 de out de 2016

Colasanti e Camões


Verbetes poéticos

Leia atentamente os textos abaixo:

1. A Casa das Palavras (Marina Colasanti)
Andam dizendo que uma imagem vale mais que mil palavras. É uma frase de efeito, com ar de modernidade. As pessoas acreditam, até repetem. Mas não é verdade. Os próprios cultores da imagem tiveram que cunhar uma frase para louvá-la, talvez por achar difícil criar uma imagem que dissesse a mesma coisa, com a mesma clareza. Felizmente o mundo está cheio de pessoas que amam as palavras e que se encantam com elas.
E agora vou plantar aqui uma palavra que é um nome: Medellín. E sei que na cabeça de todo mundo essa palavra evoca várias outras: drogas, tráfico, cartel, violência. À distância, essas parecem ser as únicas palavras daquela cidade. Não são. Medellín – eu estive lá e sei – é uma cidade que ama especialmente as palavras.
Ali acontece todo ano um festival de poesia surpreendente, que ocorre em escolas, teatros, igrejas, praças, tudo ao mesmo tempo, e tudo lotado. Ali atuava, quando lá estive, um grupo chamado Ratos de Biblioteca, de estímulo à leitura. E dali me chega agora um encantador livro de palavras chamado Casa das estrelas.
Claro, todo livro é de palavras. Mas este, como explica seu autor, Javier Naranjo, surgiu como um jogo em que crianças do primário eram convidadas a dar o significado de algumas palavras. As palavras eram frequentemente escolhidas pelas próprias crianças. E o “jogo”, que era muito sério, durou vários anos. Ao fim, foi feita uma seleção corrigindo-se apenas a ortografia. E do resultado final, transcrevo aqui algumas frases, agradecendo a Naranjo e às crianças.

Adulto: Pessoa que toda vez que fala, primeiro é dela. (Andrés Bedoya, 8 anos)
Água: Líquido que não se pode beber. (Nélson Ramírez, 7 anos)
Amor: É o que cada coração junta para dar a alguém. (Lina Maria Murillo, 10 anos)
Conseguir uma namorada aqui e outra em minha casa, e quero que a minha mãe emagreça porque está muito gorda. (Orlando Vasquez, 6 anos)
Ausência: É que eu vou morrer. (Yorlady Rave, 8 anos)
Assassinato: Tirar o melhor da pessoa. (Juan Restrepo, 9 anos)
Deus: É o amor com cabelo comprido e poderes. (Ana Milena Hurtado, 5 anos)
É uma pessoa em que cravam cravos. É jovem. (Sebastián Uribe, 5 anos)
Dinheiro: É o fruto do trabalho mas há casos especiais. (Pepino Nates, 11 anos)
Eternidade: É quando numa casa todos os filhos casam, não se pões música, não tem confusão. Essa casa parece uma eternidade. (Blanca Henao, 10 anos)
Lar: O lar é alguma coisa que de repente se separa. (Juliana Escobar, 10 anos)
Igreja: Onde se vai para perdoar Deus. (Natalia Bueno, 7 anos)
Lembrança: É uma coisa de pequeno a grande. (Fabián Loiza, 12 anos)
Mãe: Minha mãe cuida muito de mim, gosta muito de mim, me dá comida quando não quero. (Camilo Gómez, 7 anos)
A mãe é a pele da gente. (Ana Milena Hurtado, 7 anos)
Medo: É que a minha mãe dirige um carro e uns senhores do viaduto não podem comer e quebram o vidro do carro e matam ela e matam meu pai e eu vivo sozinho. (Orlando Vásquez, 6 anos)
Morto: Ser humano insensível. (David Casadiego, 10 anos)
Nada: É quando pergunto a alguém se viu alguma coisa. (Juan Osório, 8 anos)
Criança: É um ser humano, são más às vezes, são boas às vezes, choram, gritam, brincam, brigam, tomam banho; às vezes não tomam banho, se metem na piscina e crescem. (Natalia Calderón, 6 anos)
Tranquilidade: Por exemplo, que o pai diga que vai bater e depois diga que não vai mais. (Blanca Henao, 10 anos)
Universo: Casa das estrelas. (Carlos Gómez, 12 anos).




2.
Amor é um fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se e contente;
É um cuidar que ganha em se perder;

É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
(Camões)


Instruções
A partir da leitura do soneto de Camões e da crônica de Marina Colasanti, imite a construção de imagens poéticas, fora do comum, e elabore verbetes poéticos escolhendo quatro palavras da lista abaixo. Elabore imagens inusitadas – podem ser bem-humoradas, poéticas, engraçadas ou líricas. Não use definições de dicionário nem conceitos comumente conhecidos. Crie suas próprias definições, mantendo coerência em relação ao que é definido. Cada verbete deve apresentar a palavra e sua classe gramatical (morfológica) e deve ser composto, por, ao menos, quatro definições, como os exemplos abaixo. As definições devem vir numeradas e separadas por ponto e vírgula, como se faz num verbete de dicionário. Observe os exemplos:

Amor (s. m.): 1. Chuva mansinha no final da tarde; 2. Gato dorminhoco afagando o rosto e ronronando; 3. Dividir o bolo de cenoura e ainda dar sua parte da cobertura para o outro; 4. Abraço apertado que nos salva da gente e do mundo no final do dia.

Raiva (s.f.): 1. Um bicho feroz que surge quando menos se espera; 2. Cachorro com dentes arreganhados, que mora no fundo mais escuro do coração da gente; 3. Noite repentina quando alguém nos tira do sério; 4. Rio vermelho que inunda os olhos, o coração e, às vezes, até a boca e as palavras.

Lista de palavras


Amor
Raiva
Medo
Alegria
Saudade
Lembrança
Ausência
Tranquilidade
Angústia
Futuro
Tempo

Nenhum comentário:

Postar um comentário